O Evangelho da Criação – Laudato Si’ III


Continuando nossa viagem pela bela e rica encíclica do Papa Francisco, nunca é demais recordar que, para ele, “a ciência e a religião, que fornecem diferentes abordagens da realidade, podem entrar num diálogo intenso e frutuoso para ambas” (LS 62), numa visão de conjunto sobre o universo e a vida humana nele presente e atuante.

Considerando esse complexo vital onde se instala a crise ecológica hodierna, se quisermos “construir uma ecologia que nos permita reparar tudo o que temos destruído, então nenhum ramo das ciências e nenhuma forma de sabedoria pode ser preterida, nem sequer a sabedoria religiosa com a sua linguagem própria” (LS 63). Desse modo, no fundo, Francisco conclama “que nós, crentes, conheçamos melhor os compromissos ecológicos que brotam das nossas convicções” (LS 64).

A intrínseca relação do homem com a natureza está na base da revelação judaico-cristã, no plano original de Deus Criador desde sempre; nesse sentido é que se torna possível falar de um “Evangelho da Criação”. As narrativas bíblicas dos primeiros capítulos do livro do Gênesis apontam claramente para essa relação de fraternidade original do homem (com Deus – com os homens – com a natureza), rompida, porém, pelo pecado, cuja consequência é a distorção e a negligência do valor dessas relações. A terra é dom de Deus para o ser humano, que deve dela zelar como um administrador responsável, não como um forasteiro invasor. Ao mandamento de “dominar” (Gn 1,28) equivale o de “cultivar” e “guardar” (Gn 2,15). “Esta responsabilidade perante uma terra que é de Deus implica que o ser humano, dotado de inteligência, respeite as leis da natureza e os delicados equilíbrios entre os seres deste mundo” (LS 68), pois são laços queridos pelo próprio Deus.

Os conturbados episódios de Caim e Abel (Gn 4) e do Dilúvio (Gn 6-9) lembram que o “descuido no compromisso de cultivar e manter um correto relacionamento com o próximo, relativamente a quem sou devedor da minha solicitude e proteção, destrói o relacionamento interior comigo mesmo, com os outros, com Deus e com a terra. Quando todas estas relações são negligenciadas, quando a justiça deixa de habitar na terra, a Bíblia diz-nos que toda a vida está ameaçada” (LS 70). Porém, a última palavra não é da destruição e da morte, mas da vida e da salvação que provém só de Deus (Sl 62,1)! A palavra final é a palavra da esperança e da paz, o que está na raiz do descanso sabático semanal e jubilar (LS 71).

No mesmo sentido segue a pregação dos profetas. “Na Bíblia, o Deus que liberta e salva é o mesmo que criou o universo, e estes dois modos de agir divino estão íntima e inseparavelmente ligados” (LS 73), o que nos convida, então, a voltar à aliança, com Deus e com o mundo criado. Entre as idas e vindas de sua história, a experiência do exílio na Babilônia conduziu Israel à convicção de que é sempre preciso e necessário “recuperar a esperança” (LS  74) e, nesse intento, a “melhor maneira de colocar o ser humano no seu lugar e acabar com a sua pretensão de ser dominador absoluto da terra, é voltar a propor a figura de um Pai criador e único dono do mundo” (LS 75).

Assim, em suma, “a criação só pode se conceber como um dom que vem das mãos abertas do Pai de todos, como uma realidade iluminada pelo amor que nos chama a uma comunhão universal” (LS 76), fundada no “amor de Deus [que] é a razão fundamental de toda a criação” (LS 77). Reconhecemos, assim, a beleza e a profundidade de todas as criaturas de Deus, mas, ao mesmo tempo, reconhecemos nossa fragilidade e limite, característica intrínseca de nosso ser criatural. A fé, nessa ótica, “permite-nos interpretar o significado e a beleza misteriosa do que acontece [... e] a Igreja, com a sua ação, procura não só lembrar o dever de cuidar da natureza, mas também e ‘sobretudo proteger o homem da destruição de si mesmo’” (LS 79), quando se esquece de sua fragilidade e finitude. O ser humano é criatura entre as criaturas, porém, com uma marca que faz toda a diferença: somos imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26) e, por isso, “cada um de nós tem em si uma identidade pessoal, capaz de entrar em diálogo com os outros e com o próprio Deus” (LS 81) como sujeitos livres e responsáveis, na profundidade do amor.