Criação e comunhão universal – Laudato Si’ IV


Continuamos com a reflexão anterior, com um olhar sobre a criação pelo viés bíblico-teológico, conforme o capítulo II da encíclica Laudato Si’ (LS) do Papa Francisco.

Toda criatura tem sua importância na grande obra de Deus que é o mundo. De fato, “todo o universo material é uma linguagem do amor de Deus, do seu carinho sem medida por nós” (LS 84). Embora o ser humano seja o ápice da Criação, própria “imagem e semelhança” de Deus (Gn 1,26), ele só o é em relação com os demais seres, em mútua interdependência, e torna-se, para eles, guardião e administrador (cf. Gn 2,15). Poder é aqui sinônimo de responsabilidade e cuidado!

Todas as coisas são como um reflexo de Deus (cf. LS 87) e, de fato, “toda a natureza, além de manifestar Deus, é lugar de sua presença” (LS 88). Por isso, “nós e todos os seres do universo, sendo criados pelo mesmo Pai, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde” (LS 89), o que deve gerar em nós um senso ainda maior de cuidado e zelo para com toda a Criação, no combate a todo e qualquer interesse de destruição e manipulação da vida, humana ou não.

Embora o direito à propriedade seja legítimo, como ensina a Doutrina Social da Igreja, intrinsecamente toda propriedade privada tem uma função social, uma vez que a terra é um bem comum a todos os seres vivos, e a vida é um bem superior a qualquer outro, e exige ser favorecida em todos os seus aspectos (cf. LS 93-95).

É nessa ótica que Jesus apresenta Deus: como o Pai que quer o bem de todos os seus filhos e criaturas, em uma dinâmica de amor e cuidado, de liberdade. “Jesus vivia em plena harmonia com a criação. [...] Não Se apresentava como um asceta separado do mundo ou inimigo das coisas aprazíveis da vida. [...] Encontrava-se longe das filosofias que desprezavam o corpo, a matéria e as realidades deste mundo. [...] Jesus trabalhava com suas mãos, entrando diariamente em contato com a matéria criada por Deus para a moldar com a sua capacidade de artesão. [...] Assim santificou o trabalho, atribuindo-lhe um valor peculiar para o nosso amadurecimento” (LS 98). 

De fato, no mistério de Cristo se centra o mistério da Criação, desde a origem até seu fim (Ef 1,10; Cl 1,15-20; Jo 1,1-3.14.16; 1Cor 15,28). O mistério de sua Encarnação, que culmina na Cruz-Ressurreição ilumina o mundo com uma luz nova, conduzindo todas as coisas à plenitude, à vida nova em Deus, no amor.