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Espiritualidade conjugal e familiar – Amoris Laetitia XII

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  O último capítulo da Exortação Apostólica pós-sinodal Amoris Laetitia , do Papa Francisco, que completa 5 anos de publicação, nos coloca diante da proposta de uma bela e profunda espiritualidade conjugal e familiar. O amor da vida de família tem dimensões próprias, que revelam o amor de Deus para com todos os seus filhos e filhas. Acima de tudo, “a Trindade está presente no templo da comunhão matrimonial” (AL 314). Deus habita a vida de cada família, se faz presença em cada lar, sente junto com cada um de seus membros as aflições, consolos, dúvidas, sofrimentos, angústias, alegrias, esperanças – situações concretas do cotidiano da vida. E nesse horizonte é que se pode compreender que “a espiritualidade matrimonial é uma espiritualidade do vínculo habitado pelo amor divino” (AL 315), que se manifesta na realidade do amor familiar. Cristo deve ser sempre o centro da vida da família. É o seu amor redentor que a unifica na fé, na caridade, na verdade. Desse modo, “os momentos de aleg

Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade – Amoris Laetitia XI

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  Esse é o título do 8º capítulo da Exortação Amoris Laetitia , do Papa Francisco, sem dúvida um dos mais debatidos pela mídia dentro e fora da Igreja Católica. A meu ver, o capítulo não apresenta dubiedades nem controvérsias, como alguns acusam, mas orienta uma proposta pastoral a partir de uma visão concreta, realista e humanizadora. A grande questão em xeque – o grande background de toda a explanação do capítulo – é o acompanhamento de situações de especial fragilidade quanto à compreensão e vivência matrimonial e conjugal. Vamos ao texto. Em primeiro lugar, o Papa se dedica àqueles casais que vivem casados somente “ no civil ” ou apenas convivem sem nenhuma formalidade legal, bem como as “ uniões de fato ”. Seu grande risco é, numa compreensão débil do significado do matrimônio, gerar uma indisponibilidade para a vivência de um vínculo saudável, comprometido e duradouro e, assim, levar a uma explícita rejeição do valor e do significado do matrimônio, tanto em suas dimensões l

Reforçar a educação dos filhos – Amoris Laetitia X

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  O capítulo VII da Exortação pós-sinodal Amoris Laetitia , do Papa Francisco, trata da questão da educação dos filhos no contexto do matrimônio, na urgente tarefa que as famílias hoje têm de “reinventar seus métodos e encontrar novos recursos” (AL 260), diante dos desafios dos contextos atuais. De modo bastante simples, o Papa contrapõe vigilância e obsessão. A postura de vigilância se traduz em uma educação para a liberdade e a responsabilidade, que conduzem ao amadurecimento e à autonomia. Obsessão é outro nome para dominação e possessividade. A educação dos filhos encontra seu trilho em relações de sincera confiança – dos filhos nos pais, dos pais nos filhos –, além de esforços para desenvolver o bem , que sempre tende a valores mais altos e melhores. Esse processo de diálogo educativo conduz a uma formação ética sadia: “A educação moral é cultivar a liberdade..., desenvolver aqueles princípios interiores estáveis que movem a praticar espontaneamente o bem. A virtude é uma

Entre crises e angústias – Amoris Laetitia IX

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Continuamos no capítulo VI da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, do Papa Francisco, que trata de lançar luzes sobre algumas perspectivas pastorais no complexo universo da família neste início de milênio. Antes de tudo, é preciso ter a consciência de que o amor é chamado a amadurecer com a experiência da vida. Nesse processo, não existe imunidade a crises, angústias e sofrimentos. É entre dores e obstáculos que a alegria do amor se revela, especialmente quando se trata da vida conjugal e familiar. Na verdade, “cada crise esconde uma boa notícia, que é preciso saber escutar, afinando os ouvidos do coração” (AL 232). Crises são oportunidades de reaprender o valor do perdão e do sonho. “Cada crise é como um novo ‘sim’ que torna possível o amor amadurecer reforçado, transfigurado, amadurecido, iluminado” (AL 238). É preciso, para tanto, uma atitude de abertura constante e acolhida solidária, para discernir caminhos de libertação e cura de feridas graves e imaturidades. Uma das mais

Um dia nublado

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  Em dias nublados não me animo a ler. Gosto mais de me dedicar a pensar. E estou aprendendo também a escrever. Dias nublados fazem parte do vai-e-vem meteorológico do mundo. Por mais que haja previsões, não é possível contê-los nem os deter. Eles simplesmente existem, chegam com alguma preparação ou não, e modificam o ambiente, e, quase sempre, também os nossos humores. É curioso como o clima externo influi nessa percepção interna de nós mesmos. Sentimentos e pensamentos se ativam, e nos levam, tantas vezes despretensiosamente. E nos mudam. E nos fazem. A vida interior também seus dias nublados. Ninguém é feito só de luz, nem só de sombras. E por vida interior me refiro a toda atividade do nosso pensamento e sentimento: afetividade, emoção, razão, espiritualidade, sonho, esperança... tudo que nos faz ser como somos, que nos configura como pessoa humana única, irrepetível, singular. Interioridade. Que não se trata de uma exclusão ao corporal, material, externo a nós – porque tamb

Ressurreições

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  Não é a primeira vez que me pego pensando solto no texto do evangelho deste Domingo na Oitava da Páscoa (Jo 20,19-29). É o clássico episódio de Tomé e sua necessidade infame de “ver para crer”. Mas, nas minhas divagações, tento fugir do óbvio e do trivial, para ler além da letra do texto. Numa observação não muito ortodoxa, penso que o texto trata de “ressurreições em escala”, em níveis sucessivos. Me explico. O fato fundante da narrativa e seu grande plano de fundo é, sem dúvida, a ressurreição do Senhor , que constitui o coração da fé cristã. O Mistério Pascal de Jesus é o que lhe coroa a dignidade de Cristo, sendo atestado pelos seus seguidores como verdadeiro Filho de Deus. É a verdade irrenunciável a partir da qual se desdobram os textos evangélicos, fundamentalmente. Aliás, há também uma ressurreição da fé dos discípulos . Se a memória não nos trai, todos os Doze abandonaram o Mestre na hora derradeira. O Quarto Evangelho fala da permanência solitário de um dos varões, o Di

O Crucificado nos crucificados

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  Essa imagem acima eu a recolhi há alguns dias numa publicação do Instagram. E ela me fez pensar agudamente. Existe uma disciplina na teologia chamada “cristologia”. É o estudo mais direcionado sobre Jesus: sua vida, mensagem, compreensão, atualidade. Em um dos esforços de atualização desse pensamento surge a chamada “cristologia da libertação”, que busca uma visão ampla e bem prática do mistério de Cristo na vida do povo que sofre e espera redenção nesta vida. É nesse horizonte que se situa a imagem em questão. Uma das fortes expressões dessa teologia é o esforço de enxergar Cristo Crucificado no rosto dos crucificados da história. E nessa terrível pandemia, que parece cada vez mais longe do fim, temos novas cruzes, crucificados e algozes. Neles se renova e atualiza o mistério da Paixão de Cristo Jesus. Os infectados são crucificados. Carregam a dolorosa cruz de uma doença implacável, imprevisível, incurável. Seu carrasco é invisível, perigoso e letal: um vírus, uma criatura s

Lavar os pés. De quem? Para quê?

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  Pensando na liturgia da Quinta-feira Santa, que já está bem próxima, é impossível não vir à mente a imagem de Jesus lavando os pés dos seus discípulos. Cena forte, impactante, envolvente. Tanto é que muita gente chama a celebração desse dia solene simplesmente de “missa do lava-pés”. Quem nunca se imaginou tendo os pés lavados pelo padre nesse dia? Muita gente chora quando é convidado ou até mesmo pego de improviso para esse gesto. Você também? Porém, o que existe de mais nesse gesto? Lavar os pés era a tarefa dos escravos. Era um sinal de submissão à autoridade de outrem. Jesus que se abaixa e lava os pés dos Doze sinaliza sacramentalmente sua vocação de servo da humanidade, em obediência à vontade do Pai e coerência à sua própria palavra: “Quem quiser ser o maior, se faça o servo de todos” (cf. Mc 10,44). Oferecer água para lavar os pés era significativo gesto de acolhida israelita. No calor escaldante do deserto, ao ser recepcionado a uma casa para uma refeição, especialmen