Um abismo atrai outro abismo



Esse título um tanto incomum é inspirado no Salmo 42,8: "Como um abismo atrai outro abismo ao fragor das cascatas, vossas ondas e vossas torrentes sobre mim se lançaram". O salmista, nesses versos, canta a sua "sede de Deus", a seu desejo profundo de, passadas as dificuldades desta vida, viver o eterno louvor na presença do Onipotente. Passar do abismo da dor, pelo abandono e pela confiança filial em Deus, ao abismo da graça. "Um abismo atrai outro abismo".

Estamos num contexto social de insegurança, de descrença para com as instituições (que exercem poder seja político, econômico, educacional ou religioso), de medo diante da crescente violência, de descrédito para com o ser humano. Uma cultura da corrupção, do consumo, da satisfação imediata, do "descartável". A lógica desse mundo alucinado aonde pode nos levar? "Um abismo atrai outro abismo".

O "abismo" invoca a "profundidade". Ao pensar num abismo vem-nos à mente a ideia de uma queda sem fim, de um precipício que conduz à morte, ao aniquilamento. Contemplar o abismo é trazer à tona a consciência da nossa finitude, é maravilhar-se com o infinito que não nos pertence e ao mesmo tempo nos amedronta e extasia. Contemplar o abismo é contemplar nosso desejo de transcender a nós mesmos em direção ao Infinito. "Um abismo atrai outro abismo". 

Desde os tempos mais antigos, a mística judaico-cristã ensina a contemplar o mundo com os olhos de Deus, a "recordar-se de Deus" (cf. Sl 42,7). Um olhar pessimista sobre a realidade da vida presente, com certeza, não pode ser o olhar de Deus. "Um abismo atrai outro abismo". A ótica divina é a ótica do amor. "Deus é Amor" (1Jo 4,16), essencialmente. A grande lição da Encarnação do Filho de Deus é o ensinamento do não-limite do amor de Deus - "Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos" (Jo 15,12-13). "Um abismo atrai outro abismo".

O "pregão quaresmal" que inaugura o ministério público de Jesus não caiu em desuso; pelo contrário, se faz hoje ainda mais urgente: "Cumpriu-se o tempo e está próximo o Reino de Deus: convertei-vos e crede no evangelho!" (Mc 1,15). O centro desse anúncio também não mudou, apesar do tempo e dos homens: "Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo" (Mt 6,33). Se nos esforçarmos todos em dar um autêntico e fiel testemunho de uma vida nova, alicerçada no amor e na justiça, desde as mais pequenas coisas, conseguiremos transformar o mundo. Não por uma utopia ideologizada, mas por gestos concretos de solidariedade, de partilha, de amor. "Um abismo atrai outro abismo".