Entre 16 e 17



Quando adotei o nome “Pluriverso” para este nosso blog, pensava na possibilidade de infindas formas e abordagens, e pensamento livre. Além do que tenho comumente feito: promover a formação e a reflexão. “Teológico” se refere ao horizonte, irrenunciável, da fé. O texto de hoje é uma livre reflexão sobre o conturbado ano passado (sobre, pelo menos, alguns pontos). Tenho a obrigação de pedir desculpas por passar novamente tanto tempo sem escrever – o fim de ano foi agitado com os preparativos da ordenação e estou ainda saboreando os primeiros frutos do ministério presbiteral.

2016 foi um ano conturbado, cheio de reviravoltas. A controvérsia na política nacional é a grande vitrine disso. Saíram os ruins; entraram os piores. Ou seja: regredimos. Voltar à estaca zero seria já um grande avanço – ilusão. Há quem espere ver Lula preso – acho que alguém irá se frustrar... Também na alta política eclesiástica, relações em balanço com a petulante carta do g4 dos cardeais conservadores contra o Papa Francisco. Existe um claro movimento xiita-conservador e direitista que tem feito um barulho danado, com seus “pop stars” de batina e Catecismo e Direito em punho (ou mesmo sem toda a indumentária eclesiástica ou o arcabouço doutrinal – na verdade, muitos com o tão simples e pronto “eu acho”, típico de quem não tem nada a dizer), prontos a tudo julgar e a pouco discernir com caridade. Nada contra a batina (porque também uso, mais por gosto do que por força, acredite) nem contra a doutrina ortodoxa (base comum e pilar seguro da fé) – mas a verdadeira religião pede mais! Penso que esvaziamos o Ano Santo quando reforçamos a ideia da Porta e não incentivamos o bastante as Obras de misericórdia (e vamos pagar – se já não estivermos pagando – o preço disso). A liturgia celebra o mistério de Deus na história do mundo e na vida concreta de cada homem e mulher, com todos os seus dramas, angústias, apelos, alegrias e esperanças (GS 1); se descurarmos disso, se essa história teologal não se faz presente, voltemos a Jesus, que recupera o profeta Oseias: “misericórdia eu quero, não sacrifícios” (Mt 9,13). É preciso recomeçar. Sempre. Ecclesia semper reformanda. Menos pensadores de gabinete! Mais profetas da vida real!

Nem vou dizer o que podemos esperar do aniversário de 500 anos da Reforma... O que empunharemos? Flores ou armas? Celebraremos com esperança no caminho da unidade (na diversidade) ou despejaremos discursos proselitistas e acusações recíprocas? Qual lado está certo? O de Cristo, tão somente!

Acredito que 2017 começa com muitas expectativas. E como um sinal de esperança. Muita água ainda há de rolar. Aguardemos. Espero que aconteçam boas mudanças, que nos elevem e ajudem a viver melhor, em todas as dimensões. Luz. Paz. Esperança.